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We are not foreigners!

O que dizer dessa caça aos imigrantes num país feito por imigrantes, onde todos os ancestrais, inclusive os indígenas, eram, em algum ponto da história, foreigners?

Existem coisas que por mais que a gente queira, não se repetem na vida: voltar a ser criança pode ser um sonho ou um pesadelo se for o primeiro dia de escola. Para mim foi horrível. Entrei já no primeiro ano sabendo ler e escrever. Queria aprender a ler aos três anos, segundo o que minha mãe escreveu no meu livro de infância. Eu pegava os livros e tentava decifrar o que estava escrito. Procurando alguma fortuita imagem para servir de guia, acabava nos livros de arte contando estórias para mim mesma. Eu gostava da enciclopédia Larousse quando aprendi a ler. Alguma amiga tinha dito à minha mãe que a pedagogia “moderna” da época desaconselhava que uma criança aprendesse a ler de pequena. Segundo a mesma amiga transmissora, como um mosquito, dessa pseudociência, a criança que aprendesse a ler muito cedo depois se “desinteressaria” da escola. Fiquei sem poder ler por mais dois anos, até que me conseguiram uma professora particular. Finalmente os livros me apresentaram o mundo lá de fora que eu queria conhecer.

Como tudo pode ter alguma ligação remota, parece que escrevi o parágrafo acima pensando na coincidência de uma situação que vi repetida em dois países diferentes, e em ambos, ainda mais coincidentemente, num aeroporto. Ao contrário do título desta crônica, senti-me estrangeira naquele colégio. Ambiente de catolicismo à francesa, je vous salue, Marie. Cresci numa família de pouca religião. Aquelas freiras exigindo silêncio, missa, orações que eu não sabia pronunciar. Missa não era só de sétimo dia? Então toda a minha família tinha que morrer para eu ir à missa todos os domingos? Recusei-me a frequentar a escola com uma febre. Eu que dançava com sapatilhas pela casa toda e tocava piano como um gato que sobe no teclado, agora tinha medo do escuro. Minha avó desconfiou. Ao pedir que eu fosse buscar algo no meu quarto, refuguei. Ela então, que tinha pouca paciência com “freiras”, levou-me ao quarto, acendeu a luz e perguntou: “Está com medo do diabo? Olhe aqui, não há nada! O diabo não existe!”.

Aliviadíssima porque ela tinha mesmo adivinhado a origem do medo, eu aproveitei e perguntei também, por via das dúvidas: E Deus existe?

— Não sei. Eu nunca vi.

Mesmo com o peso da dúvida retirado dos ombros, aquela sensação de estrangeira, a italianinha no colégio francês, persistiu, e depois se dissolveu.

 Mas volto aos dois episódios que presenciei.

Há muitos anos, saindo do Brasil para visitar um irmão na Itália, cheguei ao aeroporto Fiumicino, em Roma, junto com um avião que trazia turistas norte-americanos. Fui à fila da então Comunidade Europeia e vi que atrás de mim havia um casal norte-americano. Estranhei, mas afinal podiam ter passaporte europeu. Não pareciam nem um pouco o tipo do norte-americano internacional, pelo contrário; mas a gente nunca sabe. Intrigada, comecei a ouvir a conversa entre os dois. Norte-americano provinciano, quando sai dos Estados Unidos, fica com cara de assustado. Os dois estavam assustadíssimos. O marido, mais racional, dizia – acho que estamos na fila errada. Olhe ali. Está escrito Comunidade Europeia. Acho que temos que ir para a outra fila.  E a mulher: “É uma fila para estrangeiros! Não somos estrangeiros!”.

Sim, leitor! It’s for foreigners! Porque norte-americanos não são foreigners, ouviu?

Virei para trás e disse: “Sim, é isso mesmo. A fila de estrangeiros é aquela ali”, e apontei.

A mulher, já vestida como o que ela achava que as italianas se vestem, de vestido estampado e chapéu de palha, teve um chilique: “Deviam ter uma fila para cidadãos americanos!”, exclamou indignadíssima. Não queria sair. Ficaram. Quando foi a minha vez de passar, aquele diabinho que vive no meu lado esquerdo me cutucou com o garfo e comentei com o senhor do guichê da imigração o acontecido. Em segundos o vi e ouvi cantando uma ária de impropérios ao casal. No recitativo que se seguiu, vi os dois caminhando para a fila dos foreigners. A lição baixou como um encosto no espaço estreito do espírito daquelas criaturas.

A outra ocasião aconteceu há bem menos tempo. Eu fui daqui de Santa Barbara para o Brasil. O avião cheio de brasileiros. Em São Paulo, os funcionários ainda têm a delicadeza de falar inglês em Guarulhos. Havia ali uma mocinha indicando com a mão as duas filas e dizendo alto e bom som:

— Brasileiros, à esquerda! Foreigners to the right!

Num reconhecimento de que quem viaja torturado num avião por horas a fio chega mesmo com o miolo mole, ela repetia e repetia os mesmos gestos.

Fomos nós, os brasileiros, para a nossa fila. Dali a pouco, chega um casal atrás de mim. Meia-idade, com cara de assustados. Um déjà-vu imediato. Novamente, achei que poderiam ter algum passaporte brasileiro. A gente nunca sabe. Mas resolvi perguntar.

—Do you have a Brazilian passport, by the way?

Faz-se um silêncio. A essa altura, a brasileirada na minha frente, quase todos homens de negócio e de terno, estavam escutando, mas fingindo que não. Estava todo mundo curioso e todo mundo falava inglês.

Repliquei logo, já pensando no chilique de Roma: “Look, this line is for Brazilians. Foreigners, it’s over there”, e indiquei com a mão a fila.

A mulher deu o chilique esperado:

—We are not foreigners! — Com uma bela ênfase no not.

Foi uma gargalhada geral na fila. — Olha só, rapaz, eles não são estrangeiros! — E outro comentando bem alto: —Mas é o cúmulo da arrogância! — E dá-lhe expletivos, e risos e balançar de cabeças.

O marido, visivelmente assustado – afinal, não é todo o dia que alguém se descobre foreigner —, tentava levar a mulher pelo braço até a fila do exílio, a fila da humilhação. O meu diabinho ia fazer a mesma coisa, mas havia uma fila inteira de diabinhos ali a rir. Tiveram que sair.

Agora eu pergunto ao meu único leitor: seria coincidência? Dá para entender agora? O que dizer dessa caça aos imigrantes num país feito por imigrantes, onde todos os ancestrais, inclusive os indígenas, eram, em algum ponto da história, foreigners?  Detesto ser professoral, mas o excepcionalismo patrioteiro é mesmo doentio e gera um medo infantil do desconhecido. Eles precisavam de uma avó como a minha.

E agora, nesta semana, outra crise. Nem todo o mundo sabe, e isso inclui o Brasil, que a conhecida projeção do mapa-múndi feita por Mercator no século 16 é distorcida. Projeta o Hemisfério Norte bem grande e o sul liliputiano, a não ser que se tenha em casa um globo. O Hemisfério Sul no planisfério do Mercator é uma piada absurda: a África menor que a Groenlândia (vai ver que é por isso?), a América do Sul e a Austrália ridiculamente pequenas, embora o Brasil seja maior que o território contíguo dos Estados Unidos. O mapa-múndi de Mercator é uma caricatura do colonialismo. E agora, com aprovação unânime dos países da ONU (exceto o Estados Unidos), adotou-se um mapa-múndi onde as dimensões são projetadas segundo o tamanho real dos continentes: equal Earth, “Terra igual”. Curiosa, fui ver os comentários na notícia a respeito dessa correção auspiciosa. A maioria, felizmente, se envergonha do voto contra, e pensa direitinho. Mas tem uma minoria que acha que o novo mapa é mentiroso e woke: “Imagine só reduzir o tamanho dos Estados Unidos!”, é o que dizem alguns comentários. Mas a maioria faz troça dessa gente. Um comentário vindo abaixo de um indignado desses era assim: “Ué? Mas a Terra não é plana? Vai ver que o resto lá embaixo caiu do mapa [se referindo à Antártica]”. Um sujeito escreveu que a África era um país, no que foi corrigido por uma nova enxurrada de zombarias.  É o mundo em que vivemos. Do avesso. E é o Colégio Eleitoral que “elege” um presidente que perdeu eleição.

A solução para o excepcionalismo não sei se existe. Mas sei que é infantil chamar os americanos de “estadunidenses”. Esse novo chavão só podia mesmo ter sua origem num certo país ibérico que não vou nomear. “Estados Unidos” é forma de governo. O Brasil já foi Estados Unidos do Brasil, e virou República Federativa do Brasil. O nome do país, quer os ressentidos gostem ou não, é United States of America. A não ser que, por coerência, comecemos a chamar os brasileiros de republicofederativanos.  E falando ainda uma vez em coincidências, não é por coincidência que por aqui houve uma guerra de secessão, e eu moro na República da Califórnia. Estados Desunidos seria mais apropriado, aliás. Os estadesunidenses.

E como tenho um senso de equilíbrio inato, numa das próximas crônicas, se me der na telha, vou escrever sobre o comportamento dos brasileiros como foreigners. Não será uma crônica bonita. Só para adiantar, toda a vez que escuto brasileiros abarrotados de sacolas de compra, falando alto e se comportando mal, fujo logo para um museu, onde não se os vê; e se me pedem alguma informação em mau inglês pensando que sou gringa, respondo com um “Niet! Ich spreche pas l’anglais! Niente propriamente!” ou se estou de bom humor, em inglês mesmo: “Sorry, I’m an eternal foreigner!”.

Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.


Foto de capa:

Pessoa segurando uma claquete de filmagem com as mãos, em primeiro plano, em ambiente fechado com iluminação artificial, tendo ao fundo cenário desfocado com pessoas e estruturas de estúdio ou set de produção audiovisual.
18 ago 26

Entrevista exclusiva com o rei Picrocole feita pelo correspondente de guerra François Rabelais

O grande repórter esteve presente na guerra de invasão nos domínios do rei Grandgousier, pai de Gargantua
Gravura em preto e branco representando uma cena histórica ou religiosa em ambiente fortificado, com uma pessoa montada em cavalo segurando lança no centro, uma figura em vestes claras de pé à direita também com lança, corpos deitados no solo em primeiro plano, estrutura de muralhas e torre ao fundo, e grupo de pessoas em segundo plano, executada em técnica de xilogravura ou água-forte com detalhes em linhas paralelas e pontilhismo característicos da gravura clássica.

07 jul 26

Quem escreve essa crônica?

"Embora a crônica termine sendo quase uma conversa de bar, ou uma conversa entre amigos, isso não quer dizer que a figura do cronista seja a mesma da carteira de identidade"
Da esquerda para a direita, Antonio Candido, Clarice Lispector e Fernando Sabino
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