Antes, deixamos Nhô Belarmino e Nhá Gabriela terminarem: Morena, que bicho é aquele/que cantou lá no sertão?/Foi a linda gralha-azul/na hora de plantar pinhão. Findo o xote, paramos o carro para comprar pinhão, claro, na saída de Santo Antônio do Pinhal. Encontramos pessoas na beira da estrada que buscavam a sobrevivência por meio da comercialização daquela iguaria. Em vez de um pacote, compramos três.
Ao chegar a Campinas, depois de desfazer as malas, apanhei um pinhão e o virei pra tudo quanto é lado, imaginando-o alojado e acolhido dentro de uma pinha até amadurecer. Um coração. Umedecido, libera uma cor abrasada qual sangue. Uma gota que goteja na lembrança, trazendo-me as sementes cozidas, produzindo uma polpa densa e cremosa. Como também o pinhão sapecado, tradição centenária, em que as sementes são lançadas nas grimpas, folhas secas e pontiagudas de araucárias, nas quais se ateia fogo para assá-las, ao tempo de a fumaça elevar-se, remorando um rito funeral gualacho, praticado muito antes da vinda dos europeus à América do Sul. O próprio consumo do pinhão em terras brasileiras é anterior à dita colonização europeia, inclusive tendo sido reportado pelo jesuíta Antonio Ruiz de Montoya no século XVII. O padre Montoya, na intenção da catequização de povos originários, estabeleceu reduções jesuíticas na região dos gualachos, identificados ao povo Kaingang, que habita os estados do sul, muito em particular em regiões de araucárias. Montoya também buscou evangelizar os Guarani nos campos encantados do Paiquerê, na região do Guayrá, hoje estado do Paraná. E foi em um tekoá do Guayrá que Guasyra, aquela de espírito perseverante, conheceu o valoroso Kuriasu, grande e forte como um pinheiro imponente. Contudo, Guasyra era do povo guayaná, adversário ao de Kuriasu.
Amores proibidos, tragédia anunciada. O guerreiro destemido foi flechado por seus oponentes do tronco para cima. Não cedeu. Não caiu. Guasyra, aquela que resiste, clamou a Nhanderu. Nosso Pai, que a tudo vê e a todos escuta, transformou aquele corpo flechado, do modo como estava, em uma araucária (Araucaria angustifolia), árvore cinzenta de tronco reto e galhos concentrados em seu topo. Os braços, as flechas encravadas em Kuriasu, elevaram-se feito um candelabro dando graças a Nhanderu. O desespero de Guasyra aumentou ao contemplar uma gota de sangue de seu amado no solo abençoado do Paiquerê. Nhanderu, Nosso Pai, que de tudo cuida, fez da gota de sangue de Kuriasu um pinhão e, zelando por Guasyra, transformou-a na gralha-azul (Cyanocorax caeruleus), cuja missão, daí para frente, seria a de semear corações de sua paixão para alimentar os povos do Guayrá. Começou ali, entre os rios Pirapó e Tibagi, indo até a nascente do rio Iguaçu, na divisa de Pinhais e São José dos Pinhais, municípios encostados a Curitiba, cuja etimologia advém de Kur’ytýba, que remete a pinheirais, araucárias ou lugar repleto de araucárias.
O mesmo acontece com outras cidades paranaenses, além da já mencionadas: Araucária, Pinhão, Pinhalão, Pinhal de São Bento. Em Santa Catarina, Pinhalzinho; no Rio Grande do Sul, Pinhal, Pinhal Grande, Pinhal da Serra, Pinheirinho do Vale; em São Paulo, Pinhalzinho, Espírito Santo do Pinhal, Santo Antônio do Pinhal, onde adquirimos o pinhão e onde esta crônica teve início, que aqui não termina, pois em viagem anterior compramos pinhão em conservas na saída de Campos de Jordão. Retorno à contemplação do pinhão e me pergunto: — O que fazer com a casca? O tom terroso poderia ser utilizado em tingimento natural de tecidos, ou enquanto matéria-prima para a produção de carvão ativado. Neste caso, em vez de sapecar o pinhão, este é levado à carbonização em temperaturas elevadas (300 oC a 600 oC) sem ou com mínima presença de oxigênio, de modo a eliminar gases e compostos voláteis. Em seguida, há a ativação física, em que o agora carvão é exposto a gases oxidantes a temperatura entre 800 oC e 1000 oC. Ou ativação química, na qual o carvão é misturado com agentes químicos, feito o hidróxido de potássio, antes ou durante o aquecimento em temperatura por volta de 400°C a 900°C. Em ambas as ativações, busca-se a formação de uma estrutura porosa com sítios ativos para a retenção de gases, líquidos e impurezas. Encontram-se diversas aplicações para o carvão ativado, como, por exemplo, na filtração residencial e industrial de água, no tratamento do ar, de gases e de efluentes.
Ao abrir o pinhão para degustá-lo, observei a casca e a levei à chama na boca de um fogão. À medida que a labareda tostava a ponta da casca, liberando notas rústicas e amadeiradas, transpus-me para o seu interior na busca de sítios ativos de adsorção. A matriz porosa apresentava-se qual um labirinto, cujas ranhuras reproduziam a Mata dos Pinhais, ecossistema do bioma Atlântico. Um vulto azul cruzou-me, revelando-se nos sons secos e estridentes de uma gralha-azul. O pássaro ofereceu-me seu dorso e, dessa maneira, sobrevoamos o interior daquele meio poroso, sendo possível ver os sítios adsortivos removendo as impurezas do ser humano. A gralha-azul, em cada sítio ativo, lançava um pinhão na esperança de fazer brotar uma nova araucária. Sim, testemunhei o renascimento de Kuriasu, tuvixá do Paiquerê, que dançou e entoou um canto profundo, a ponto de a gralha-azul retomar a sua forma original: Guasyra, a de fala cortante qual a de uma gralha, cantou. — Filhinho, tudo o que nasce e fenece é sopro de Nosso Pai. Pude sentir tal sopro na fumaça débil oferecida por uma casca de pinhão. Voltei-me à sua polpa, firme e macia, para me envolver com o seu sabor suave que, de algum modo, lembra o de mandioca, e a mandioca me leva a outra lenda, que me reporta a tantas imagens como daquelas pessoas simples, na beira da estrada, buscando seu sustento na venda de pinhões para vencer a fome, a pobreza e a invisibilidade. Gente forte, feito Kuriasu. Gente resilente, feito Guasyra, que não se cansa de semear corações.
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