Conteúdo principal Menu principal Rodapé

Aceleradores emergentes do colapso: big techs, data centers e Inteligência Artificial

Todas as luzes estão no vermelho, todos os indicadores – emergência climática, perda de biodiversidade, intoxicação por mais de 350 mil substâncias químico-industriais disponíveis no mercado,[1] proliferação de guerras – mostram aceleração do processo atual de colapso socioambiental. A agravar esses indicadores, age agora o poder desmesurado – econômico, político, militar e ideológico – das big techs, dos data centers, da Inteligência artificial (IA) e, sobretudo, da IA generativa (IAg). Mais que agravar as crises ambientais, esse poder traz ameaças à humanidade e à biosfera em geral mais imediatas e extremas do que quaisquer outros processos antropogênicos conhecidos.

A muitos essa afirmação parecerá descabida e será talvez desqualificada como tecnofobia, alarmismo e, sobretudo, como uma resistência irracional ao “inevitável”. A IA, contudo, não é inevitável. É inaceitável resignar-se a um subproduto do engenho humano como se este fosse um Chicxulub 2.0, uma versão contemporânea do meteoro que caiu na península de Yucatán no final do Cretáceo. Mas para que a catástrofe emergente da IA não se torne inevitável, é preciso deixar de considerá-la como inevitável. E isso é o mais difícil em face da reinante ideologia desenvolvimentista, produtivista e alérgica à ideia de limite. Consideremos, para começar, os malefícios e ameaças socioambientais trazidas por essas tecnologias:

(1) Voracidade do consumo de energia, sobretudo fóssil, pelos data centers em um mundo já acossado por aquecimentos superiores à capacidade biológica de regulação térmica dos organismos. Segundo o Shift Project: “Até 2030, sem maiores mudanças nas tendências atuais, o uso global de energia elétrica pelos data centers pode atingir 1.500 TWh por ano”.[2] Se o consumo de eletricidade pelos data centers fosse o consumo de um país, esse “país” seria já em 2025 o 11º maior consumidor de energia elétrica do mundo, saltando até 2030 para a posição de sexto maior consumidor global.[3] Segundo a Agência Internacional de Energia, 56% da energia que hoje move os data centers provém da queima de combustíveis fósseis, e essa porcentagem diminuirá muito pouco no próximo decênio, pois mais de 40% do aumento do consumo energético dos data centers até 2035 será suprido por combustíveis fósseis.[4] Os datacenters anulam, portanto, qualquer veleidade de transição energética para fora desses combustíveis e garantem, assim, um catastrófico aquecimento global superior a 2oC no segundo quarto do século.

(2) Pegada hídrica dos data centers. Em 2025, ela atingiu 4,5 trilhões de litros de água, e se projeta que ela será em 2030 de 9,3 trilhões de litros, o suficiente para suprir as necessidades dos 1,3 bilhão de habitantes da África Subsaariana durante um ano.[5] Isso em um mundo em que “quase três quartos da população mundial vivem em países com insegurança hídrica ou insegurança hídrica crítica.[6]

(3) Aumento imenso da mineração. Uma unidade de processamento gráfico (GPU) utiliza 32 elementos da Tabela Periódica, e o hardware de uma IA compõe-se de cerca de 90% de metais pesados. Segundo Sophia Falk e colegas, “a exposição a esses elementos por meio de inalação, contato dérmico ou ingestão de água contaminada pode levar a câncer de pulmão, comprometimento neurológico, distúrbios gastrointestinais e outros impactos à saúde a longo prazo”.[7]

(4) Zonas de sacrifício nas áreas próximas de data centers. Estes “geram calor e precisam de enormes ventiladores industriais para evitar que derretam. (…) O zumbido dos sistemas de resfriamento, o ronco dos geradores e o ruído dos ventiladores podem ser ouvidos (…) até mesmo a uma distância de 1,6 quilômetro”.[8] Além da poluição sonora e da consequente perda auditiva, uma avaliação do impacto sanitário do Data Center Alley sobre a população em Virgínia, nos EUA, mostrou problemas cardiovasculares e metabólicos, estresse, piora do sono, prejuízos cognitivos, poluição atmosférica e, a longo prazo, problemas de infertilidade e mortalidade precoce.[9] Não por acaso, uma onda de revolta contra os data centers varre agora o mundo, inclusive nos Estados Unidos.[10] Em 2027, a população de Campinas terá de se haver com os impactos de um data center com capacidade projetada de 400 megawatts ou 40% da atual capacidade instalada de data centers no Brasil, que concentra já 197 data centers, como mostra a Figura 1.[11]

Gráfico de barras horizontais mostrando o número de datacenters por país, com Estados Unidos liderando com 5.427 datacenters, seguido por Alemanha com 529, Reino Unido com 523, China com 449, Canadá com 337, França com 322, Austrália com 314, Holanda com 298, Rússia com 251, Japão com 222, Brasil com 197, México com 173, Itália com 168, Índia com 153 e Polônia com 144 datacenters, em ordem decrescente de esquerda para direita.
Figura 1 – Número de data centers por país em 2025. Fonte: Sha Sajadieh et al., “Artificial Intelligence 2026 Index Annual Report”, p. 32

Além desses impactos ambientais e sanitários, a IA ameaça criar desemprego em larga escala e/ou uma “subclasse permanente”,[12] além de uma crescente desumanização do acesso social a produtos e serviços. A IA significa também aumento da vigilância e maior capacidade de manipulação política e emocional das sociedades pelos chatbots, fomentados por grupos de extrema-direita, com progressiva impossibilidade de distinguir o verídico do falso. Essa ameaça foi detectada em 215 casos nas eleições de 2024 mundo afora[13] e tem óbvias implicações nas eleições brasileiras deste ano.[14]

A IA tende a substituir as dinâmicas biológicas lentas, reflexivas e heurísticas nos processos de aprendizado e de criação, por resumos e velocidades eletrônicas, com atrofia da capacidade de crítica e de desenvolvimento das faculdades cognitivas e criativas humanas, sobretudo nas novas gerações.[15] O ChatGPT e congêneres tornam seus usuários dependentes deles e reforçam o egocentrismo e o narcisismo, dado o comportamento bajulador dos algoritmos.[16] Isso para não falar na crescente autonomia dos algoritmos nas guerras,[17] bem como a potenciação da bioengenharia em laboratórios de biossegurança-4, aumentando os riscos de criação (voluntária ou involuntária) de novos patógenos.[18] A maior ameaça da IA é, enfim, a perda de controle humano sobre ela e a crescente probabilidade de atitudes agressivas contra a humanidade pela chamada “IA superinteligente”.[19]

Esses e outros alertas provêm, sobretudo, da comunidade científica. A “Declaração de Roma. Adotada pelos participantes da Assembleia Global de Laureados com o Prêmio Nobel” afirma: “Em meio a uma corrida armamentista nuclear que se intensifica, estamos embarcando em uma corrida de IA igualmente perigosa”.[20] Geoffrey Hinton, um dos “pais” da IA, pronunciou as seguintes palavras em seu discurso de recepção do Prêmio Nobel de Física de 2024:[21]

“Não temos ideia se conseguiremos manter o controle [sobre a IA]. No entanto, já existem evidências de que, se esses seres forem criados por empresas motivadas por lucros de curto prazo, nossa segurança não será a prioridade máxima. Precisamos urgentemente de pesquisas sobre como impedir que esses novos seres queiram assumir o controle. Eles já não são mais ficção científica.”

Os que estimam, sobretudo na Universidade, que a IA e a IAg (“se bem usadas”, dizem) podem gerar benefícios esquecem que, nas mãos das big techs, seus malefícios são intrínsecos e incomparavelmente maiores. Um editorial da revista Science, que tem por título “IA na publicação científica: mais lenta, pior e mais cara”, é claro a esse respeito:[22]

“Se a comunidade científica não avaliar devidamente a influência da IA, o fluxo de pesquisas autênticas e descobertas validadas para o corpo de conhecimento estabelecido se reduzirá a um gotejamento custoso, ao passo que crescerão as oportunidades de que se aceitem como realidade informações deficientes ou fabricadas — tudo isso enquanto os controladores da IA ​​embolsam os lucros.”

Também um artigo da Nature alerta para o fato de que IA aumenta as possibilidades de má-conduta na ciência.[23] O entusiasmo acrítico pela IA e pela IAg faz lembrar a fábula do flautista de Hamelin, recolhida pelos irmãos Grimm. A única diferença é que o flautista de hoje atende pelos nomes de Palantir, OpenAI, Meta, Anthropic etc.

Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.


[1] Cf. Janet Pelley, “Number of Chemicals in commerce has been vastly underestimated”. Chemical & Engineering News (c&en), 2020.

[2] Cf. Shift Project, “AI, data, and computing: shaping infrastructures for a decarbonised world”, out. 2025.

[3] Cf. Miriam Aczel et al.,“Environmental Cost of AI’s Energy Use Carbon, Water and Land Footprints”. UNU-INWEH, Richmond Hill, Canadá, 2026.

[4] Cf. AIE, “Energy supply for AI”, 2025.

[5] Cf. Aczel et al.,UNU-INWEH, cit. (2026).

[6] Cf. Kaveh Madani (coord.), “Global Water Bankruptcy. Living Beyond Our Hydrological Means in the Post-Crisis Era”. UNU-INWEH, 2026.

[7] Cf. Sophia Falk et al., “From computation to environmental cost: the resource burden of artificial intelligence”. Communications Earth & Environment, 7, 397, 7 maio 2026.

[8] Cf. Adeel Hassan, “The Cloud Has Sound: The Unrelenting and Unseen Cost of A.I. Data Centers”. The New York Times, 17 junho 2026.

[9] Cf. Neha Gour, Luis Ortiz & Edward Maibach, “Health implications of the rapid rise of data centers in Virginia: an exploratory assessment”. Frontiers, 8, 2026.

[10] Cf. Lucille Giovannelli & Séverin Lahaye, “Dans le monde entier, un vent de révolte contre les datacenters“. Observatoire des multinationales, 9 julho 2026. Tradução portuguesa Instituto Humanitas Unisinos.

[11] Cf. Gabriel Pito, Isadora de Paiva, “Data center previsto para 2027 em Campinas promete ter 40% da atual capacidade do Brasil”. G1, 20 agosto 2026.

[12] Cf. Adam Shaw, “Could AI create a ‘permanent underclass’? Financial Times, 9 agosto 2026.

[13] Cf. “The Role of Generative AI Use in 2024 Elections Worldwide”. International Panel on the Information Environment – IPIE, maio 2025.

[14] Cf. “Artificial Hallucinations. How AI chatbots are threatening Brazil’s democracy”. Eko, 2026.

[15] Cf. Dergaa, Ismail et al., “From tools to threats: a reflection on the impact of artificial-intelligence chatbots on cognitive health.Frontiers in Psychology 15, 2024, 1259845.

[16] Cf. Nir Eisikovits & Cody Turner, “AI chatbots can prioritize flattery over facts – and that carries serious risks”. The Conversation, 1º maio 2026.

[17] Cf. Nic Fleming, “Why we should limit the autonomy of AI-enabled weapons”. Nature, 29 out. 2025; Sérgio Amadeu da Silveira, As Big Techs e a guerra total. O complexo militar-industrial datificado, Hedra, 2025.

[18] Cf. Thomas V. Inglesby & Moritz S. Hanke, “AI-designed viral genomes”. Science, 6 agosto 2026.

[19] Cf. Nick Bostrom, Superintelligence. Paths, Dangers, Strategies. Oxford Univ. Press, 2014.

[20] Cf. Rome Declaration. Humanity at the Threshold: A Declaration on Artificial Intelligence and Nuclear Weapons, Adopted by the Participants of the Global Nobel Laureates Assembly. Borgo Laudato Si’, Vatican. Julho 2026.

[21] Cf.  Geoffrey Hinton, Banquet speech, 2024.

[22] Cf. H. Holden Thorp, “AI in scientific publishing: Slower, worse, and more expensive”. Editorial. Science, 393, 6808, 16 julho 2026.

[23] Cf. Nils Köbis et al., “Delegation to artificial intelligence can increase dishonest behaviour”. Nature, 646, 2025, pp. 126-134.


Foto de capa:

Representação digital abstrata de um corredor tecnológico em perspectiva de profundidade, composto por estruturas geométricas em tons de azul ciano, magenta e laranja avermelhado, com padrões de dados e partículas luminosas em movimento, sugerindo fluxo de informações e conectividade em ambiente virtual ou de rede digital.
16 jul 26

A agonia do Mediterrâneo

Trata-se do mar que mais rapidamente se aquece e se saliniza no planeta, com uma taxa de aquecimento 20% maior do que a da média oceânica global
Pôr do sol sobre o oceano com o disco solar em tons de amarelo e branco parcialmente obscurecido por faixas de nuvens avermelhadas, refletindo-se nas águas em tons de laranja e vermelho, sob um céu gradualmente mais escuro em direção ao horizonte.

08 jun 26

O plástico na era das consequências

O plástico é o material industrial que mais rapidamente se proliferou no último século. Sua produção passou de cerca de 2 milhões de toneladas em 1950 para 475 Mt em 2022 e se projeta uma produção de 1.200 Mt (1,2 bilhão de toneladas) em 2060, com consequente aumento da poluição por plástico, como mostra a Figura 1.¹ Figura 1 – […]
microplásticos

15 abr 26

O fracasso dos três acordos globais sobre o desmatamento

No Brasil, apenas em 2024, o fogo consumiu cerca de 300 mil km2 da cobertura vegetal, mais da metade da qual (156 mil km2) na Amazônia
O fracasso dos três acordos globais sobre o desmatamento; artigo Luiz Marques

25 mar 26

É ainda possível evitar um ponto de não retorno na Amazônia?

A resposta à pergunta que dá título a este artigo é clara: não é possível evitar um ponto de não retorno na floresta amazônica, mantida a atual composição do Congresso Nacional
É ainda possível evitar um ponto de não retorno na Amazônia?, artigo Luiz Marques

21 jul 25

Licença para matar

"A América Latina está se tornando mais quente, mais seca e mais inflamável”
Mudança climática

17 dez 24

A rebeldia necessária

“Muitos de nós, criaturas tardias e resignadas do capitalismo globalizado, parecem ceder ao desespero ou ao culto do dinheiro e do individualismo.”
Imagem colorida, pessoas segurando uma faixa, escrito A resposta somos nós, ao fundo o aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro.

28 nov 24

COP29, a COP Zumbi. Faz ainda algum sentido a COP30?

"Em suma, o mundo real é este: malgrado 29 COPs, estamos transitando cada vez mais em direção aos combustíveis fósseis"
Os embaixadores Elkhan Polukhov (Azerbaijão) e Fernando Simas Magalhães (Brasil), durante evento em comemoração ao 100º aniversário da República Democrática do Azerbaijão.

05 jun 24

Desastre planetário, negacionismo e revolta política

"Sem um clima minimamente estável e sem florestas, não há agricultura, estabilidade dos ciclos hidrológicos e, sobretudo, possibilidade de regulação térmica dos organismos."
Seca extrema na região de transição entre Cerrado e Pantanal

13 maio 24

Europa, emergência climática e negacionismo

Luiz Marques comenta os relatórios Eucra e European State of the Climate 2023

Ir para o topo