Ando rindo muito. A família e os amigos no Brasil me perguntam como. Aí eu digo: lembram-se do filme dos irmãos Marx em que toda vez que uma matrona fala, sai um som de elefante barrindo, trombeteando? A matrona é a correção, a ordem, a moral pública, e consequentemente, o bastião da hipocrisia. Hoje em dia são os políticos e os politicamente corretos. Os que querem cancelar. A única coisa de que gostei quando vi umas poucas vezes aqueles desenhos animados e chatos do Charlie Brown (evidentemente o moleque sofria de depressão) era que os adultos, quando falavam, soavam como trombones. Ando ouvindo barridos e trombones, por isso começo no desespero e acabo no riso; não só barridos e trombones, mas zurradas de um lado e uivos de desespero do outro. Ao menos é musical. Esses tempos também passarão. Não que o futuro possa ser melhor. Os pessimistas acham que está ruim. Os verdadeiros otimistas acham que vai piorar e muito. Por isso lembrei-me de que, faz uns anos, meu velho amigo François Rabelais, grande repórter, esteve presente na guerra de invasão do rei Picrocole nos domínios do rei Grandgousier, pai de Gargantua. Francis, que é como eu o chamo, conseguiu nada mais nada menos que uma entrevista com Picrocole.
Pensei em mandar uma mensagem ao Francis e ver se também conseguia uma entrevista. Não consegui, porque o rei tem medo de imprensa impertinente. Outro dia mesmo chamou uma repórter de piggy. O mundo mudou com tanta tecnologia, tantas formas novas de guerra e de conquista. Será que o rei tinha ficado um pouco menos colérico? Ou era sina do nome: picros, do grego, negro, e chole, bile? Francis me disse que o rei morreu – mas rei morto, rei posto – e legou ao mundo dos vivos uma prolífica prole. Disse também que podia arranjar um papo além-túmulo, e sem ter que recorrer a um médium, visto que Brás Cubas também se comunicou além-túmulo. Topei! Não adiantou. O reizinho é mesmo arredio. O que me consolou foi conversar com o Francis, tomando um bom vinho de Chinon e oferecendo para ele provar um pinot noir de Santa Barbara, onde moro, que ele aprovou. Recordamos quase com pena aquele perigoso rei narcisista. Mais perigoso ainda porque nunca soube o quanto não sabia. Reproduzo aqui a nossa conversa, da velha Califórnia para o mundo.
Quando Francis o entrevistou em seu palácio, o rei estava assessorado pela sua máquina de guerra composta pelo general Merdaille, o Duque de Miudeza e o Conde Espadachim. Francis olhou seu caderno de notas e leu o que falavam os assessores quando ele entrou na sala de audiências.
— Sir, o senhor atacará os reinos da Tunísia, Argélia, Bona, Corona… passando além, segurará na mão Maiorca, Minorca, Sardenha e Córsega… Costeando à esquerda dominará toda a Gália Narbônica, Provença, Sabóia, Gênova Florença e, Deus queira, Roma. O pobre senhor Papa já morre de medo.
— Pela minha fé, disse Picrocole, nunca vou beijar-lhe as pantufas!
— Tomada a Itália, tomaremos a Cândia, Chipre, Rodes, e Deus guarde Jerusalém, pois o Sultão não é comparável ao senhor em poder!
— Vamos para lá o mais rápido possível, disse Picrocole. E mataremos todos esses cães turcos e maometistas?
Francis lembrou que havia ali um velho nobre experimentado em perigos, um verdadeiro veterano de guerra, chamado Echephron, que em grego significa Prudente. E ele quis contar ao rei a história da moça que ia vender seu pote de leite na vila, mas foi sonhando tanto que tropeçou e quebrou o pote, derramando sua futura riqueza.
— Oh, disse o Duque de Miudeza, veja o delirante! Você acha que vamos nos esconder no canto da lareira e passar nossa vida como as senhoras? Quem não se aventura, não tem cavalo nem mula… E não esqueçamos do Canadá e do resto do mundo, e da América do Sul, que ainda nem conhecemos direito.
— Ora, quem muito se aventura perde cavalo e mula, disse Echephron.
Como todos os que leram Gargantua sabem, o rei Picrocole foi derrotado por Gargantua, seus companheiros e as tropas de seu pai, Grandgousier. As balas que Gargantua recebia caíam de sua cabeça como piolhos.
Mas será o benedito? Ou será a Groelândia? É que, no antigo mapa do Mercator, essa pequena ilha gelada parece enorme, e a ganância não tem limites. Lembrei ao Francis que um outro sujeito costumava abraçar um globo terrestre enorme, um balão cheio de ar, que era o mundo. Estourou. Vimos tudo isso quando o Charlie Chaplin mostrou que o grande ditador dançou.
O Francis então chamou minha atenção para um pormenor.
— Quem me disse isso foi o Luciano. Ele me contou o que o Menipo viu no mundo do além. No mundo do além, tudo era do avesso. No mundo do além, o mundo ficava de pernas para o ar. Tudo invertido. Por exemplo, a Cleópatra, que havia sido poderosa rainha, agora vendia cebolas pelas ruas da cidade dos mortos.
— Ah… agora estou me lembrando — eu disse. Você mencionou isso no Pantagruel, que eu traduzi. Aliás, tive sempre o maior trabalho para traduzir você! Quanta pesquisa! Quantas notas! A mesa coberta de livros, tal como você escrevia…
— Isso mesmo! Foi o próprio Pantagruel quem me disse. Depois de uma batalha, o Epistemon teve a cabeça cortada, você não lembra?
— Claro, e o Panurge a costurou de volta, esfregando um unguento que ele chamava de ressuscitativo. Nossa, para variar, a lista desse pessoal morto era bem longa!
— Alexandre, o Grande remendava calças velhas, Aquiles era tintureiro, Nero tocava viela, Júlio César calafetava navios com alcatrão, o Papa Alexandre era apanhador de ratos, Helena, agenciadora de camareiras, Dido vendia cogumelos, e Pentesileia, agrião, o Papa Calisto…
— Espere um pouco. Que eu me lembre, isso é muito feio, Francis…
— Mas é a verdade, e a gente tem sempre que falar a verdade.
— Fale, então.
— O Papa Calisto era barbeiro de xotas.
— Sem comentários! Você fica aí dizendo que temos que falar a verdade, mas você não pôs nenhum francês nessa sua lista. Será que não tem francês no seu mundo do avesso, hein?
— …………………………………………………………………………………………… !!!
— Estou esperando uma explicação.
— É que tem outra coisa que você não está levando em consideração. Lembra que, na primeira edição do Pantagruel, o editor, em vez de imprimir asme, alma, naquela grafia antiga que eu escrevia, imprimiu asne, asno? Desde esse dia, nunca mais tive paz. Os teólogos da Sorbonne, malcheirosos sorbonícolas, junto com o Parlamento de Paris, quiseram me prender, quiçá até na fogueira iam me jogar, como fizeram com meu velho amigo Étienne Dolet. Se não fosse a família du Bellay, a rainha Marguerite de Navarre, o cardeal Odet, não sei o que seria de mim.
— E como! Nem precisa se justificar. Só mudou a fogueira. Agora é na bala ou no mata-leão. E nem precisa ser famoso. Basta sair de um país e querer entrar em outro. Mas ao menos o Papa atual, Papa Bob, não se parece nem um pouco com os de sua época, hein?
— Eu vi e me surpreendi. Tem outra coisa também. Lembra dos filósofos e artistas que tinham sido indigentes neste mundo? Como tudo se invertia, Epistemon disse que Diógenes desfilava vestindo toga de púrpura e causava fúria em Alexandre, o Grande, quando ele não remendava bem suas calças e o pagava com golpes de bastão. Epiteto gostava de se vestir à francesa. Mestre François Villon, grande poeta, não suportava que Xerxes cobrasse sobrepreço pela mostarda que vendia e por isso fazia xixi no balde do ex-rei persa.
— É mesmo um consolo. Seja como for, sei que você tem que partir. Olha, Francis, quero agradecer sua sabedoria, o papo e o vinho. Mais uma vez, você educa e faz rir. Enquanto você falava, eu já estava aqui fazendo a minha lista. Muitos você não os conhece. Nem precisa, porque nada muda. Como a sua lista, ela é enorme. Já do lado dos filósofos, poetas e artistas, encolheu muito, desmilinguiu a quase nada. Para desforra, convido meu único leitor ou leitora a elaborar uma lista bem grande e completa. Não uso rede social, mas você fique à vontade para publicar.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.
Foto de capa:

