Antes do século XIX não havia laboratórios de pesquisa nas universidades; Galileu Galilei, por exemplo, tinha uma pequena oficina, e Isaac Newton desenvolveu suas pesquisas em seus aposentos na universidade. Antoine Lavoisier, considerado pai da química moderna, era advogado de formação e aprofundou-se em química com algumas disciplinas eletivas e depois como autodidata nas horas vagas. Ele teve acesso a um bom laboratório, mas devido ao seu emprego no Arsenal Real de Paris, e não numa universidade. A pesquisa científica só foi parar na universidade – lentamente, diga-se de passagem – durante o século XIX, a partir da ideia de von Humbolt para a Universidade de Berlim em 1810, considerada o marco de origem da universidade de pesquisa[i]. No entanto, o precursor desse movimento para as ciências naturais foi Justus von Liebig (1803-1873), o químico do título acima, que estabeleceu o formato de pesquisa e formação de pesquisadores que seguimos até hoje nas ciências exatas e naturais. Foi com ele que a universidade passou a desempenhar seu papel imprescindível para a ciência. Liebig foi, como Lavoisier, em grande parte autodidata, vasculhando desde a fabricação de sabão ou os laboratórios de farmacêuticos, onde chegou a ser aprendiz. Na universidade frequentou disciplinas de química, num tempo em que eram ministradas geralmente por médicos ou farmacêuticos. Passado esse período, pôde, graças a uma bolsa, passar dois anos em Paris, a “capital científica” da época, e ser admitido no laboratório (particular) de Gaultier de Claudry. Seu trabalho lá chamou a atenção do já renomado Gay-Lussac, em cujo laboratório Liebig foi admitido, naquele mesmo Arsenal Real, onde Lavoisier trabalhara.
Liebig, ainda no colégio, declarava que queria ser “químico” quando crescesse, sendo zombado pelo professor e pelos colegas. As aspas aqui se devem ao fato de que, na época, essa profissão era ainda mal definida[ii]. O desejo do jovem estudante acabou se realizando, pois se tornou um dos químicos mais importantes da Alemanha no século XIX, envolvendo-se no estabelecimento da nascente química orgânica, ainda que, com o passar dos anos, também se envolvesse em polêmicas de modo pouco obsequioso – temas que por si só renderiam outros textos. O jovem “químico” retornou à Alemanha em 1824, logo assumindo uma cadeira na então pequena Universidade Estadual de Giessen, que hoje leva seu nome, Universidade Justus Liebig de Giessen, justa homenagem a quem revolucionou o ensino e estrutura de pesquisa por lá. Liebig queria estabelecer uma instituição de ensino exemplar, construindo aos poucos seu famoso laboratório, onde estudantes viriam a passar por um treinamento sistemático em todos os procedimentos experimentais disponíveis na época. Após esse treinamento, recebiam um tema de pesquisa, que era desenvolvido sob a orientação diária do mestre. Essa concepção de ensino talvez seja a origem da nossa iniciação científica de hoje. O laboratório universitário da Universidade de Giessen formou toda uma geração de químicos, agora já sem aspas na palavra. Entre seus estudantes, figuravam August Kekulé, que descobriu a estrutura do anel de benzeno, e August Wilhelm von Hofmann, que foi o primeiro presidente da Sociedade Alemã de Química. Não só aqueles que queriam ser químicos ou farmacêuticos eram atraídos a seu laboratório, mas também estudantes de outras áreas, como filosofia. Passaram por ali mais de 700 estudantes, até 1852, quando Liebig foi para Munique[iii]. Obviamente nem todos esses estudantes tornaram-se químicos famosos, mas seu papel foi crucial para o estabelecimento da escola de pesquisa de Liebig e de um modelo de institucionalização da pesquisa nos séculos seguintes. Um interessante artigo de Catherine M. Jackson se debruça sobre o papel desses estudantes[iv]:
“Historicamente, os alunos e assistentes de Liebig têm sido relegados a um papel periférico no desenvolvimento de seu laboratório em Giessen. Este artigo argumenta que esses jovens químicos foram fundamentais para o sucesso inicial de Liebig, suprindo sua necessidade de trabalho experimental e produzindo as publicações aparentemente independentes que estabeleceram a credibilidade de seu novo método de análise orgânica. Os alunos e assistentes de Liebig representaram uma solução específica para a questão da mão de obra técnica e demonstram que o papel do técnico transcende em muito a mera execução de manipulações. O técnico, assim como o cientista, possui uma história — embora esta permaneça, em grande parte, por ser contada”.

A última frase merece uma atenção mais detida para entendermos o processo de produção de conhecimento no mundo acadêmico e reconhecermos aqueles cujos créditos talvez tenham sido omitidos.
Duas pontas permancem soltas nessa crônica. A primeira é dada pela pista de que estudantes de filosofia também se matriculavam nas aulas de laboratório de Liebig. O químico promovia talvez uma visão interdisciplinar do conhecimento e foi um divulgador de ciência interessante. Escreveu em 1843 o livro “Cartas familiares de Química” (Familiar Letters on Chemistry), originalmente em inglês. O livro de domínio público é acessível em forma digital pela internet[v]. A primeria série descreve a “relação da química com os negócios, agricultura e fisiologia”. O sucesso comercial das cartas levou a uma segunda série, publicada no ano seguinte. Seu capítulo de abertura, “Apreciação da Química”, deveria ser lido por todos os estudantes de química, e não só. Descreve o desenvolvimento da ciência até então, defende-a pelo seu valor intrínseco como conhecimento para a humanidade, resume a relação da química com outras ciências e as atividades humanas e defende o ensino de ciências.

A segunda ponta solta é sobre como o ensino superior, não só de química, mas das outras ciências, se desenvolveu. Neste breve relato, consta que tanto Lavoisier como Liebig se formaram em parte como autodidatas, em parte pesquisando em laboratórios fora das universidades. O químico alemão trouxe uma formação mais sistemática com pesquisa para dentro de uma universidade, mas por bastante tempo essa formação ainda seria dada em cadeiras de química (ou física, ou biologia…) inseridas em outros cursos. Um exemplo é o dos cursos oferecidos pela Universidade de Berlim em 1846, que consta de um artigo sobre a “Estatística das universidades alemãs, a partir de um trabalho recente do Dr. Perry sobre a educação na universidade alemã”, de James Heywood, publicado no Journal of the Statistical Society of London[vi] (sim, faz tempo em que se estudava e avaliava as universidades, não é de agora, com os insatisfatórios e rasos rankings). Desse artigo extraio a figura com a tabela das disciplinas sob o guarda-chuva do curso de matemática oferecido pela universidade (os outros cursos eram teologia, direito, medicina, filosofia, filosofia política, geografia e história, artes e filologia).
A especialização em bacharelados nessa ou naquela ciência, com seus currículos específicos, só começaram a aparecer no final do século XIX, quando as ciências se tornaram profissões. Sob um certo aspecto, talvez fosse mais divertido o ensino superior no século XIX, mas um pouco de interdisciplinaridade vai voltando aqui e acolá nesse século XXI.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.
[i] https://www2.unicamp.br/estatico-2023/ju/artigos/peter-schulz/como-pesquisa-foi-parar-na-universidade/ ou no livro “Ciência em cena – quem faz, como se faz, onde se faz”, Peter Schulz, Faccioli Editorial.
[ii] JUSTUS VON LIEBIG, 1803-1873. PARTE 1: VIDA, PERSONALIDADE, PENSAMENTO, Juergen Heinrich Marr, Química Nova 29(5), 1129 (2006)
[iii] https://www.jstor.org/stable/3143824
[iv] Visible work: the role of student in the creation of Liebig’s Giessen research school
[v] Fac-símile (segunda série)
Formato para leitura (primeira série)
[vi] https://www.jstor.org/stable/2337680
Foto de capa:

