O título acima soa atual, dado o recente manifesto “em defesa do pluralismo e da liberdade acadêmica”[i], defendendo, entre outras coisas, a neutralidade política e institucional nas universidades. Esse manifesto suscitou um contramanifesto, “Em defesa do Pluralismo Encarnado: Contramanifesto pela igualdade democrática nas Universidades”[ii]. O placar de assinaturas dos manifestos parece ser de 1.541 x 670, por enquanto. Isso sugere que temos mesmo um dilema, ainda que me faça lembrar dos falsos dilemas discutidos por Darcy Ribeiro em “A universidade necessária”[iii], livro lá do final dos anos 1960, mesma época de um relatório da Carnegie Foundation, publicado em 1970, do qual copiei o título acima[iv]. O relatório é composto por artigos apresentados na 65ª reunião dessa fundação norte-americana para o avanço do ensino. O primeiro artigo apresenta uma lista de casos de partidarismo ao longo de séculos de história das universidades europeias, descrevendo o lento desenvolvimento da ideia de neutralidade. Um segundo artigo lembra ainda, na linha do primeiro, uma época em que a Universidade de Paris proibira o ensino das ideias de Descartes, ou, mais recentemente (1916), o posicionamento do Trinity College (Cambridge) de que “a lealdade aos esforços de guerra é imperativa, e professores desleais devem ser demitidos”. O artigo seguinte localiza uma declaração pela neutralidade como instrumento de liberdade acadêmica de 1915. O relatório termina com um artigo em que o autor, apesar de apreciar a ideia de neutralidade, considera que nas universidades modernas, maiores e mais complexas do que as do passado, essa neutralidade seria ilusória. Voltamos assim aos anos 1960.
O ambiente à época, nos Estados Unidos, era turbulento. No ambiente universitário de então surgiu o “Movimento pela liberdade de expressão” na Universidade da Califórnia em Berkeley, um movimento em grande parte espontâneo e crescente que conquistou o direito de liberdade de expressão pública no campus, o qual se tornou um dos valores fundamentais da universidade californiana[v]. O movimento foi o pivô de outros movimentos que se espalharam pelos Estados Unidos, desdobrando-se em campanhas por direitos civis e contra a guerra do Vietnã. O então reitor, Clark Kerr, é um dos pensadores mais importantes sobre essa instituição chamada universidade. Numa sociedade polarizada, a reação à complacência de Kerr com os estudantes foi peça importante para a eleição de Ronald Reagan para governador da Califórnia em 1966. Imediatamente após tomar posse, Reagan destituiu o reitor. Talvez seja esse contexto que inspirou, em 1967, o “Relatório Kalven” da Universidade de Chicago, que professa que as universidades são “os lares e promotores da crítica” e precisam manter-se neutras para garantir a liberdade acadêmica. O dilema tomou conta também das sociedades científicas, como é discutido por D. K. Price em seu artigo publicado na revista Science em 1969, “Puristas e políticos”, cujo subtítulo anuncia o tema: “Sob ataque da reação econômica e da rebelião romântica, a ciência precisa buscar sua estratégia política”. Price define a “reação econômica” como algo que pairou por aqui 50 anos depois: “Políticos (…) querem dar mais dinheiro para a tecnologia prática do que para a teoria acadêmica e quebrar a autonomia que as lideranças científicas alcançaram na distribuição dos recursos para pesquisa”. Já a “rebelião romântica” é definida pelo autor do artigo como algo mais difuso. Ele menciona o movimento estudantil, que “enfrentou a polícia em Chicago [motivação para o relatório Kalven?] e ocupou os prédios em Columbia e Berkeley [sim, os estudantes invadiram as reitorias dessas universidades]”. No entanto, centra a rebelião em uma percepção de que “ciência e tecnologia, longe de serem considerados instrumentos em prol do progresso, são identificados como os processos intelectuais que seriam as raízes das forças cegas da opressão”. Parece ressoar, ainda que fosse então uma ”rebelião eurocêntrica”, com os atuais movimentos identitários e decoloniais.
Este pequeno inventário de textos evidencia que o atual dilema entre neutralidade e partidarismo tem uma longa história e ressurge em contextos diferentes. O manifesto “Em defesa do pluralismo e da liberdade acadêmica” guarda grande semelhança com o movimento pela neutralidade nos Estados Unidos[vi], onde, aparentemente, 150 instituições adotaram essa política. No entanto, não percebo a necessária discussão sobre a diferenças entre o contexto atual das universidades americanas, sob ameaça do governo federal e censuras oficiais a livros-texto e cursos em “universidades neutras”, e o das brasileiras, onde o cenário parece-me bem diferente. Aqui e ali acontecem alguns exageros de grupos, mas não vejo muita diferença com o que acontecia em décadas passadas. A autocensura que docentes e discentes praticariam, mencionada como um dos motivos em favor da neutralidade, sempre existiu (pelo menos no meu entorno, como estudantes nos anos 1980 tínhamos receio de fazer perguntas, mesmo nas aulas de física). Não vejo também ameaças à liberdade acadêmica, talvez algumas reações mal direcionadas em um contexto de disputa por financiamento e reconhecimento em um ambiente de competitividade acelerada na “universidade empreendedora”, ou “universidade 4.0”, ou ainda, “universidade de quarta geração”.
O objeto desses manifestos também é estudado academicamente e parece não haver ainda um “consenso científico” sobre o tema neutralidade versus ativismo. A literatura se expande em diferentes espaços acadêmicos. Compartilho aqui possíveis leituras, além das referências já mencionadas: “Ciência não deveria ser política”[vii], “A ilusão da neutralidade institucional”[viii], “Cientistas que se tornam ativistas: estariam cruzando uma linha?”, “Tomando partido ou ficar de fora? Como conceitualizar o fenômeno emergente do ativismo na universidade”[ix], “A universidade ativista e ativismo universitário – um editorial”[x].
Convido leitores e leitoras a explorar esses textos para entender o que se passa no espaço acadêmico que nos acolhe, parafraseando o tapete da porta daqui em casa: “Bem-vindo à nossa louca, caótica e divertida universidade”. Eu me manifesto por termos um pouco mais de bom humor e diversão.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.
[i] Em defesa do pluralismo e da liberdade acadêmica | Em defesa do pluralismo e da liberdade acadêmica
[ii] https://pluralismoencarnado.com/
[iii] https://www.comciencia.br/urgencia-da-universidade-necessaria/
[iv] Purists and Politicians on JSTORPurists and Politicians on JSTOR
[v] https://www.berkeley.edu/free-speech/
[vi] https://www.fire.org/research-learn/fast-facts-adopting-institutional-neutrality
[vii] https://link.springer.com/article/10.1007/s10805-025-09717-w
[viii] https://www.nas.org/report/the-illusion-of-institutional-neutrality/full-report/
[ix] https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1472811724000855
[x] https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/14782103211026584
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