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Welcome to Ethiopia

"Do alto, em uma espécie de planície suspensa com vista de “borda infinita”, era possível contemplar o mar do Caribe se abrindo inteiro à nossa frente"

Em fevereiro deste ano, enquanto ajeitava o pano que deveria cobrir meu cabelo, me vi diante de uma das paisagens mais bonitas que já presenciei. O recorte robusto e abrupto do relevo talha o desfiladeiro jamaicano que dá acesso à Bob Marley Beach. Do alto, em uma espécie de planície suspensa com vista de “borda infinita”, era possível contemplar o mar do Caribe se abrindo inteiro à nossa frente.

Eu e um grupo de pesquisadores do projeto de extensão Realidades Latino-Americanas esperávamos pacientemente diante da entrada do Bobo Hill Rasta Camp, uma comunidade rastafári localizada a cerca de 22 quilômetros de Kingston, capital do país.

Em meio à paisagem exuberante, uma placa chamava atenção: “Welcome to Ethiopia”.

Naquele acampamento, acompanhamos um sábado de quaresma. Nem todas nós, mulheres, pudemos participar integralmente das atividades religiosas, já que alguns segmentos do rastafari possuem regras específicas relacionadas ao ciclo menstrual feminino e à participação nos rituais. As cerimônias, marcadas por orações e pela quebra do jejum, aconteciam no idioma patoá jamaicano — língua crioula local de base inglesa —, o que tornava a experiência ainda mais distante para nós, os únicos visitantes estrangeiros, aceitos pela comunidade depois de uma longa negociação com os coordenadores locais. A própria leitura religiosa também escapava das referências mais familiares ao cristianismo ocidental, mobilizando interpretações próprias da Bíblia etíope e de sua tradição.

As orações faziam referência a figuras centrais para a história política e espiritual do movimento. Entre elas, Marcus Garvey, intelectual e ativista jamaicano associado ao pan-africanismo e às reflexões sobre identidade negra, diáspora e retorno à África como horizonte político e simbólico diante da violência histórica da escravização atlântica. Outra figura constantemente evocada era a de Haile Selassie I, imperador da Etiópia entre 1930 e 1974, cuja imagem ganhou enorme importância dentro do rastafari por representar, entre outras coisas, a resistência etíope às investidas coloniais europeias do século 20.

Ficava evidente, ali, que aquela Etiópia evocada no Bobo Hill não correspondia exatamente a um território nacional contemporâneo, mas a uma memória política e espiritual. Era a Etiópia transformada em símbolo de resistência, permanência e reconstrução identitária diante dos processos violentos de colonização, racialização e dispersão forçada de populações africanas pelo Atlântico.

A ideia de que, ao cruzarmos os portões do Bobo Hill, estaríamos entrando em “outro país” me fez pensar sobre como esse exercício de deslocamento quase sempre nos remete, no imaginário contemporâneo, a referências europeias: “Nova Suíça”, “Dubai brasileira” ou “Nova Veneza”, nomes familiares para nós, mas que reproduzimos quase sempre sem refletirmos sobre sua importância simbólica.

Mas o que mais me intrigava, enquanto virávamos à direita para saudar a Etiópia, era perceber que raramente desejamos ocupar apenas outro espaço: queremos também ocupar outro tempo.

Passei então a me perguntar: a qual Etiópia exatamente se desejaria retornar? À Etiópia contemporânea, marcada por profundas transformações econômicas e pela inserção em agendas liberais de reforma? Ou àquela Etiópia convertida em símbolo histórico de soberania africana e resistência anticolonial durante o século 20, mas ainda assim com seus problemas e contradições?

Essa reflexão me trouxe à memória o romance búlgaro Time Shelter de Georgi Gospodinov, vencedor do Booker Prize Internacional de 2023. O livro constrói uma poderosa reflexão sobre nostalgia, memória e desejo de retorno histórico. A trama começa com um empresário que cria clínicas para pacientes com Alzheimer onde reproduz, com precisão, a estética e os objetos de décadas específicas. A proposta é simples: em vez de viverem o desconforto permanente de habitar um presente que já não reconhecem, os pacientes poderiam se manter indefinidamente no período em que suas memórias ainda faziam sentido.

Pouco a pouco, porém, a ideia ultrapassa os limites médicos e se transforma em fenômeno político. Países inteiros passam a escolher, por meio de plebiscitos, para qual período histórico desejam retornar. Algumas sociedades do antigo bloco socialista recriam os anos de estabilidade e segurança social associados às décadas finais da União Soviética; partes da Europa Ocidental tentam reviver os chamados “Trinta Anos Dourados” do pós-guerra, marcados por crescimento econômico, expansão do bem-estar social e relativa estabilidade política. Em outros casos, contudo, o retorno desejado se dirige a períodos muito mais ambíguos e violentos: momentos de auge imperial, prosperidade colonial ou expansão econômica sustentada por profundas desigualdades sociais e exclusões políticas.

O romance é desconfortável justamente porque revela algo difícil de admitir: frequentemente, nossa relação com o passado não é guiada apenas por valores éticos ou julgamentos morais sobre a história, mas também pelas condições materiais e pelas experiências concretas de segurança, pertencimento e prosperidade associadas a determinados períodos históricos.

Enquanto deixávamos o Bobo Hill e a placa de “Welcome to Ethiopia” ficava para trás, pensei que talvez nenhum retorno seja realmente possível. O passado nunca volta inteiro: retornam apenas os fragmentos que escolhemos preservar, romantizar ou esquecer. Talvez seja justamente por isso que toda nostalgia diga menos sobre aquilo que fomos e muito mais sobre aquilo de que sentimos falta no presente. No fundo, não escolhemos apenas um tempo para revisitar — escolhemos também quais conflitos estamos dispostos a apagar para que aquele passado continue parecendo habitável.

E desde então sigo pensando, já de volta ao Brasil, se seria possível para escolhermos o nosso próprio tempo imaginado de retorno. Qual passado, afinal, transformaríamos em abrigo coletivo se também nos fosse oferecida a possibilidade de habitar indefinidamente um único momento da nossa história?

Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.

Foto de capa:

Pintura artística exibida em estrutura de madeira mostrando uma figura com coroa e vestimenta decorativa acompanhada do texto "Queen Omega never went into Captivity", com bandeiras e cerca de madeira ao fundo e vista para o mar.
Fotografia no lBobo Hill Rasta Camp, comunidade rastafári; ao fundo vista para o mar (foto: Fernando Cunha Sato)
12 mar 26

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