Em muitos laboratórios brasileiros, a continuidade da pesquisa depende de fatores que vão além do rigor científico. Um freezer de temperatura ultrabaixa que deixa de receber manutenção, um contrato de fornecimento de nitrogênio líquido interrompido ou uma bolsa de pós-graduação que não é renovada podem, de um dia para o outro, anular anos de trabalho. Amostras se perdem, experimentos são interrompidos e equipes se desestruturam.
Projetos científicos não são eventos pontuais. Certa vez, ouvi de um gestor de ciência que projetos científicos não são como fábrica de goiabada: mais demanda, faz mais; menos demanda, desliga-se uma máquina e faz-se menos. Diferentemente de muitas atividades que podem ser planejadas e executadas em ciclos curtos, a pesquisa científica, especialmente em áreas experimentais, organiza-se em horizontes de médio e longo prazo. Hipóteses são formuladas para serem testadas ao longo de anos, frequentemente exigindo validação independente, replicação de resultados e, em muitos casos, acompanhamento longitudinal de fenômenos biológicos, ambientais ou sociais.
Nesse contexto, a continuidade do financiamento não é apenas desejável: ela é uma condição estrutural para que a ciência possa ser conduzida de maneira eficiente e confiável. A previsibilidade de recursos permite não apenas o planejamento adequado dos experimentos, mas também a formação de equipes, a manutenção de infraestrutura e a consolidação de linhas de pesquisa.
No Brasil, entretanto, o sistema de financiamento científico é contrário a essa lógica. Ao longo das últimas décadas, o investimento federal em ciência e tecnologia tem sido marcado por oscilações significativas, incluindo períodos de redução expressiva de recursos. Essa instabilidade tem implicações diretas sobre o funcionamento do sistema científico.
Uma das consequências mais imediatas da descontinuidade do financiamento é a interrupção de projetos em andamento, planejados para perdurarem por anos. Estudos que dependem de séries temporais, por exemplo, podem perder completamente sua validade quando há lacunas na coleta de dados. Ensaios experimentais de longa duração, comuns nas biomédicas, podem ser interrompidos antes de atingir conclusões robustas. Em tais casos, não se trata apenas de atraso, mas de perda efetiva do investimento já realizado. A descontinuidade do financiamento não apenas desacelera a pesquisa, mas desfaz o que já foi construído.
Outro impacto relevante diz respeito à formação de recursos humanos. A pesquisa científica no Brasil é feita por estudantes de pós-graduação e pesquisadores em estágio pós-doutoral, cuja permanência depende, em grande medida, da disponibilidade de bolsas. A interrupção ou redução desses financiamentos gera desperdício de recursos e compromete a continuidade da formação, levando à evasão de estudantes e ao desmonte de equipes. Em áreas estratégicas e especializadas, construir tais equipes leva anos, mas o desmonte pode acontecer em poucos meses. A perda de pessoal qualificado frequentemente leva, portanto, anos para ser revertida.
A instabilidade também afeta a retenção de talentos. Em um cenário de incerteza, cientistas passam a buscar ambientes mais previsíveis e estáveis, frequentemente no exterior, onde a ciência é política de Estado. Esse movimento representa não apenas a perda de capital humano, mas também a transferência de conhecimento e capacidade de inovação para outros países. Efetivamente, o Brasil investe recursos financeiros na formação de excelentes quadros, que passam a contribuir com a ciência em outros países.
A infraestrutura científica constitui outro ponto crítico. Equipamentos de alta complexidade exigem manutenção contínua e atualização tecnológica. Isso inclui supercomputadores para pesquisas computacionais, assim como acesso a acervos de informações essenciais para as ciências sociais. Cortes de financiamento comprometem essas atividades, levando ao sucateamento progressivo de laboratórios e à perda de capacidade analítica. Em casos mais extremos, a falta de manutenção pode resultar em danos irreversíveis a equipamentos cuja aquisição também foi feita com recursos públicos. Ou seja, perde-se o investimento governamental feito inicialmente.
Há ainda consequências menos visíveis, mas igualmente relevantes. Em áreas que dependem de amostras biológicas, como, por exemplo, biobancos e estudos clínicos, a interrupção de recursos pode comprometer sistemas de armazenamento, como freezers de temperatura ultrabaixa (-80 °C) ou tanques de nitrogênio líquido. Falhas nesses sistemas podem levar à perda definitiva de amostras coletadas ao longo de anos, inviabilizando projetos inteiros e desperdiçando recursos públicos. Interromper um projeto científico raramente significa pausá-lo, mas, na prática, encerrá-lo.
Os efeitos agregados dessas descontinuidades começam a se refletir em indicadores do sistema científico. Dados levantados pela Agência Bori em parceria com a Elsevier mostram uma redução na produção científica brasileira em 2022 e 2023, interrompendo uma trajetória de crescimento contínuo observada desde a década de 1990 (Relatório Bori Elsevier). Embora múltiplos fatores contribuam para esse cenário (inclusive a pandemia de Covid-19), a redução do financiamento é frequentemente apontada como um elemento central. Esse quadro não é resultado de um único evento, mas de um processo mais amplo. Desde aproximadamente 2013, observa-se uma tendência de queda no investimento federal em ciência e tecnologia, com impactos acumulados ao longo dos anos. Episódios mais agudos, como bloqueios orçamentários recentes que afetaram uma parcela significativa dos recursos disponíveis, evidenciam a vulnerabilidade do sistema a decisões de curto prazo.
Em contraste com esse cenário, o estado de São Paulo apresenta um modelo distinto, centrado na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Criada com base em um modelo de financiamento vinculado à receita estadual, essa agência conta com repasses regulares e previsíveis, assegurados por dispositivo constitucional. Esse mecanismo tem garantido, ao longo das décadas, uma estabilidade rara no contexto brasileiro. A previsibilidade orçamentária permite à Fapesp operar com planejamento de longo prazo, estruturando programas que vão além de chamadas pontuais. Grandes projetos têm sido concebidos com horizontes mais extensos, já que os cientistas têm mais segurança para desenvolver linhas de investigação contínuas. Além disso, a regularidade dos recursos favorece a manutenção de infraestrutura e a formação consistente e de qualidade de recursos humanos. As bolsas de pós-graduação em São Paulo são mais atrativas, e as de pós-doutorado e jovens pesquisadores são competitivas no contexto nacional para cientistas. Esta conjuntura também promove o fortalecimento de redes de pesquisa e possibilita o estabelecimento de colaborações internacionais. A estabilidade institucional reduz incertezas e aumenta a capacidade de resposta a oportunidades científicas emergentes. Em termos sistêmicos, cria-se um ambiente mais propício à produção de conhecimento de maior impacto.
A intenção aqui não é elevar São Paulo a determinado patamar ou estabelecer comparativo com outros estados. A ideia é exemplificar como tal modelo contribui para a consolidação científica. Apesar do cenário de estabilidade, deve-se dizer que este modelo não está livre de ataques. Em diversas ocasiões nos últimos anos, a comunidade científica paulista precisou se mobilizar para evitar que este modelo fosse quebrado. O mais recente evento foi o dispositivo inserido na Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2025 que permitiria a redução de 30% nos repasses da Fapesp.
A comparação entre um contexto científico marcado por instabilidade e outro por previsibilidade mostra como a ciência é uma atividade cumulativa. Seus avanços dependem, além do trabalho de desenvolvimento, da manutenção de condições adequadas de trabalho e da formação permanente de novos pesquisadores. Recursos irregulares não geram apenas ineficiência, mas desperdício de dinheiro e conhecimento. Nesse sentido, a discussão sobre financiamento científico não se limita ao volume de recursos disponíveis, embora esse seja um fator vital. Trata-se também da forma como esses recursos são alocados ao longo do tempo. A regularidade dos investimentos permite mais racionalidade no uso dos recursos, evitando desperdícios associados à descontinuidade de projetos e à perda de capacidade instalada. Se considerarmos o papel da ciência no desenvolvimento econômico e social, essa noção de continuidade torna-se ainda mais relevante. Inovações tecnológicas, avanços na saúde e soluções para desafios ambientais são, em grande medida, produtos de esforços sustentados ao longo de anos ou décadas. Sistemas de financiamento que não acompanham essa escala temporal tendem a produzir resultados limitados.
Mais do que uma questão orçamentária, a continuidade do financiamento científico é uma condição para que o conhecimento possa se acumular, se consolidar e produzir impacto. A experiência paulista exemplifica como a previsibilidade institucional não apenas sustenta a pesquisa, mas amplia sua qualidade e seu alcance. Em um sistema científico que depende de anos ou eventualmente décadas para produzir resultados consistentes, a instabilidade representa um obstáculo, um custo estrutural, cujos reflexos se darão em oportunidades perdidas, talentos dispersos e conhecimento interrompido. Se a ciência é, por natureza, um empreendimento de longo prazo, seu financiamento precisa refletir essa mesma escala temporal.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.
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