Em fevereiro deste ano, a mídia brasileira repercutiu com entusiasmo a passagem do cantor porto-riquenho Bad Bunny pelo Brasil, impulsionada também por sua aparição no show do intervalo do principal evento esportivo dos Estados Unidos. Há algo de revelador nesse contraste: a performance, celebrada como síntese da “latinidade” pop global, circula justamente a partir de um país que, ao mesmo tempo, sustenta políticas de deportação em massa e de perseguição a imigrantes e seus descendentes — em especial pessoas provenientes da África, da América Latina e do Caribe.
Ao ver Porto Rico exaltado nas telas, veio-me à memória um texto[1] de W. Arthur Lewis, economista caribenho laureado com o Nobel e com o título de nobreza inglês, Sir. Em 1950, quando o pós-guerra parecia reorganizar a economia mundial, Lewis foi particularmente perspicaz ao identificar — de forma ainda precoce — a importância que a migração e, sobretudo, as remessas enviadas por trabalhadores caribenhos no exterior tenderiam a adquirir para a sustentação das economias insulares. O que ele não poderia antecipar era que, décadas depois, esse vínculo material tão decisivo seria atravessado por um movimento político anti-imigração, capaz de restringir direitos, criminalizar deslocamentos e transformar a presença caribenha nos Estados Unidos em problema de segurança e identidade nacional. A ironia histórica é que isso ocorre apesar de o Caribe se compreender — e ser tratado — como “próximo” dos EUA não apenas pela geografia, mas por uma história política mais longa do que frequentemente se reconhece: em partes do arquipélago, lutas por autonomia e independência foram formuladas antes mesmo da consolidação do próprio processo estadunidense.
A trajetória recente de Bad Bunny ajuda a iluminar uma contradição maior do novo cenário: a exaltação simbólica da identidade latina convive com a desvalorização material de populações latinas enquanto força de trabalho. O mesmo sistema que incorpora o “latino” à música, à culinária, à moda e às narrativas familiares normaliza, em paralelo, formas de expulsão, controle e precarização. Trata-se de uma dinâmica estrutural: não é um paradoxo moral a ser resolvido pela coerência individual de um artista, mas uma engrenagem social que combina inclusão cultural e exclusão socioeconômica.
Não surpreende, portanto, que parte do debate público tenha tentado deslocar essa questão para o próprio cantor, como se ele pudesse responder sozinho ao que Mark Fisher descreveu como a capacidade do capitalismo de absorver e neutralizar revoltas, convertendo gestos críticos em mercadoria e estilo. Mas, em meio ao ruído das redes, muitas vezes perdemos de vista o que a cena expõe de mais instrutivo: ela nos obriga a olhar para economias sobre as quais sabemos pouco — as economias insulares caribenhas — e para o modo como o passado colonial permanece organizando o presente, agora entrelaçado a relações assimétricas com os Estados Unidos.
O Caribe é, ao mesmo tempo, um espaço de longa duração colonial e um laboratório histórico da modernidade: foi ali que se consolidaram tecnologias sociais e econômicas do mundo atlântico — plantation, escravização e comércio transoceânico — e foi ali também que a Revolução Haitiana reabriu, de modo radical, a imaginação política sobre liberdade, soberania e igualdade; esse duplo legado ajuda a explicar por que a pressão imperial na região frequentemente aparece sem mediações. Para compreendê-lo melhor, vale sublinhar duas especificidades: são economias pequenas e intensamente conectadas ao mercado e ao poder estadunidense; e, embora dialogue com o restante da América Latina, a região foi marcada por uma sequência própria de tutelas, ocupações e rearranjos institucionais que moldaram suas trajetórias políticas e econômicas.
A formação dos Estados nacionais caribenhos — com exceções importantes, como o Haiti — foi atravessada por modalidades variadas de intervenção externa. Em alguns casos, a independência foi condicionada; em outros, a autonomia foi restringida por status coloniais prolongados; e, quando projetos soberanos ameaçaram interesses estratégicos, vieram represálias. Ao longo do tempo, o Caribe funcionou como uma espécie de “fronteira imperial” onde se testaram mecanismos de controle: ocupações militares, protetorados, tutela econômica, e a construção de arranjos jurídicos ambíguos que mantêm territórios formalmente vinculados aos Estados Unidos.
Essas dinâmicas têm tradução econômica. O Caribe foi, por séculos, espaço de produção canavieira com trabalho negro, barato e violentamente disciplinado. Quando essa forma perdeu centralidade, o rebaixamento do custo do trabalho reapareceu em outros setores, como a montagem industrial voltada à exportação. Hoje, a região abriga uma das indústrias mais lucrativas do mundo: o turismo de sol e praia. A lógica, porém, guarda semelhanças desconfortáveis com a plantation: trabalhadores — em grande medida negros — circulam entre ilhas para sustentar serviços intensivos em trabalho, com salários baixos, direitos frágeis e alta dependência externa. E, como no passado, uma parcela expressiva do valor gerado não se fixa localmente: retorna sob forma de importações, intermediação por plataformas de agendamento de reservas, taxas e remessas de lucro de grandes grupos (muitos deles sediados fora da região).
É nesse ponto que a obra recente de Bad Bunny ganha densidade política sem depender de slogans. Ao denunciar, em suas músicas, a privatização do território, a expulsão de moradores e a transformação da vida cotidiana em cenário turístico, ele aponta para um processo que o Caribe conhece bem: a conversão de espaço em ativo, de cultura em mercadoria, de população em serviço descartável. O aviso não é “romântico”; é histórico. E ajuda a entender por que, quando um governo norte-americano endurece sua política externa, o Caribe reaparece como prioridade — não apenas por recursos naturais, mas por posição estratégica, por rotas, por controle regional e por sinais enviados ao restante do Sul Global.
É nesse contexto que Cuba nos impõe uma responsabilidade intelectual particular: sem idealizações e sem negar seus dilemas internos, é preciso reconhecer com honestidade analítica que a ilha vive há décadas sob um cerco econômico e político que tem efeitos materiais diretos sobre a vida cotidiana — e que, quando essas pressões se intensificam, o que cresce não é uma abstração, mas a vulnerabilidade social: faltas, rotinas interrompidas, escassez de energia, transporte e medicamentos, impactos sobre vidas concretas. Diante disso, declarar apoio a Cuba pode ser menos “tomar partido” e mais recusar a indiferença diante de um sofrimento evitável, reafirmando um princípio básico para qualquer leitura rigorosa do Caribe: soberania e autodeterminação são condições para que um povo possa enfrentar seus próprios problemas e tentar construir seu caminho sem coerção externa; por isso, Cuba permanece como uma referência incontornável — e um tema diante do qual nossa palavra, mesmo acadêmica e cuidadosa, também carrega responsabilidade.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.
[1] Lewis, A. The industrialization of the British West Indies, 1950.
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