Conteúdo principal Menu principal Rodapé

Perna cabeluda e outras pernas

Perna cabeluda diz o que não pode ser dito

No próximo dia 15 de março, ocorrerá uma das principais premiações do cinema, o Oscar, que, apesar das suas reconhecidas injustiças, tem O Agente Secreto entre os concorrentes ao prêmio de melhor filme internacional.

Dirigido por Kleber Mendonça Filho, o longa traz, assim como suas demais produções cinematográficas, uma crítica contundente que o atravessa de cabo a rabo e em torno da qual o diretor escolhe construir sua narrativa. Em O som ao redor, filme seu lançado em 2012, que narra a chegada de uma milícia privada e seu impacto sobre os moradores de uma rua de classe média da zona sul do Recife, Mendonça Filho critica a sobrevivência do patriarcado, ainda detentor do monopólio privado da violência e o poder de segregar grupos sociais de acordo com a proximidade do pater familias, vivido pelo fenomenal Waldemar José Solha. Em Aquarius, de 2015, Sônia Braga é Clara, moradora de um edifício na orla da praia de Boa Viagem que luta contra o assédio de uma construtora que deseja comprar o edifício onde mora. Aqui, a crítica se dirige ao monstro da especulação imobiliária devoradora das terras urbanas e das habitações de milhares de famílias, cujas remoções abrem espaço aos arranha-céus impessoais e suas sacadas gourmet. Bacurau, de 2019, cria um futuro distópico, no qual moradores de uma pequena cidade do sertão pernambucano organizam um movimento de resistência frente a estrangeiros que ali se instalam, com a finalidade de praticar a caça esportiva com os nativos da região. A referência a Palmares e a Canudos não poderia ser mais explícita.  

Em O Agente Secreto, Kleber e sua equipe não foram menos cirúrgicos na delimitação de um problema social dissecado ao longo do filme, que narra a história de um professor universitário, Marcelo, que decide retornar a Recife, sua cidade natal, em 1977. Este é o momento da “falsa” abertura política do governo Geisel que, na surdina, continua com as perseguições e torturas cruéis. Vivido por Wagner Moura, caçado pelos capatazes de um empresário mancomunado com o regime militar, o professor fica hospedado na casa de Dona Sebastiana (Tania Maria) e de suas gatinhas, gêmeas siamesas, Liza e Elis.

Os demais hóspedes de Dona Sebastiana, igualmente perseguidos políticos de ditaduras espalhadas pelo planeta, não têm nome. Ou, como Teresa Victoria, que, junto ao seu companheiro, fugiram da Guerra Civil Angolana e adotaram outro nome. Marcelo é pseudônimo de Armando e, como todos ali reunidos em roda em uma noite de Carnaval, é um “agente secreto”, somente mais um perseguido e torturado por um entre tantos Estados repressores da conjuntura dos anos 70.

Podemos considerar que foi também um “agente secreto” – ou seja, um sujeito que age em segredo, sem que ninguém conheça seu nome verdadeiro – um cadáver que, em uma dada altura do filme, aparece sendo jogado em algum ponto da praia de Boa Viagem. Abocanhada por um tubarão, a perna do sujeito acaba indo parar, com o elasmobrânquio e tudo, no necrotério da cidade, do qual acaba por fugir. Conforme a tensão do filme aumenta, no mesmo compasso da violência do regime, essa perna foragida, dita cabeluda, passa a atacar as pessoas, principalmente os “transgressores da boa sociedade”, como prostitutas, travestis e homossexuais.

2 e 2 são 8

Para quem não conhece a cultura recifense, o aparecimento da perna dando bicuda por todos os lados parece descarrilhar o filme. Eu mesma, imaginando que pudesse ser uma espécie “piada interna”, não consegui, de imediato, entender o sentido da Perna Cabeluda. Depois, pesquisando, descobri, tratar-se de um mito do folclore recifense, consagrado pela canção de Chico Science, “Monólogo ao pé do ouvido / Banditismo por uma questão de classe”, de 1994: “Galeguinho do Coque não tinha medo, não tinha / Não tinha medo da perna cabeluda / Biu do olho verde fazia sexo, fazia / Fazia sexo com seu alicate”.

A primeira aparição de Perna Cabeluda foi registrada no Diário de Pernambuco do dia 11 de dezembro de 1975. Algumas fontes dizem que, na realidade, ela teria sido uma estratégia do jornalista Raimundo Carrero para ocupar as páginas vazias do jornal em razão da censura imposta pelo regime. Assim, quando um colega chegou à redação do Diário esbaforido por ter visto uma perna cabeluda desmembrada do corpo sob a cama em que dormia com a esposa, Carrero transformou o episódio em uma das lendas urbanas mais consagradas da história da Veneza Brasileira.  

No roteiro elaborado ao longo de três anos por Kleber Mendonça, a pernoca decepada ataca justamente na noite de Carnaval em que Marcelo, o agente secreto, se encontrava reunido com outros agentes na sala de estar de Dona Sebastiana. Ela é, então, objeto de comentários e de risos entre esses anônimos das ditaduras.

Perna Cabeluda é muito mais do que folclore. Perna Cabeluda nos permite lembrar de um dos momentos mais duros de nossa história política, na qual lendas urbanas, receita de bolo de fubá, poema de Camões, páginas em branco e geniais contas erradas, como a da nota veiculada pelo semanário Em Tempo em março de 1978, na qual se lia ”Tudo errado: 2 e 2 são 8”, eram não somente usadas para preencher as páginas dos jornais como também para comunicar algo do domínio do interdito. Como ela, outras pernas, braços e mãos, que não podiam se expressar livremente pelas ruas, nem lutar abertamente pelo que acreditavam, resistiram bravamente nas páginas dos jornais brasileiros passando a mensagem de que, apesar de tudo – e de você,[1] Geisel  – ainda havia motivo para continuar lutando.

Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.


[1] A música “Apesar de Você”, de Chico Buarque de Holanda, foi lançada inicialmente em 1970, durante o governo Médici, mas somente foi liberada em 1978, durante o governo Geisel. O “você” da letra original não se refere, portanto, ao segundo, mas ao primeiro.


Foto de capa:

 Jornal do Recife
Jornal do Recife
19 nov 25

“A operação foi um sucesso”

Ao acompanhar as notícias na manhã do dia 28 de outubro, devo ter ouvido a expressão, pelo menos, umas dez vezes
“A operação foi um sucesso”; artigo de Milena Fernandes de Oliveira
Ir para o topo