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Um gênio do drama social moderno

Soube que o cineasta Ken Loach receberia o título de Doutor Honoris Causa, concedido pela Universidade de Bolonha, no King’s College, em Londres. Isso me permitiu conhecer essa figura tão especial

Escrevo as primeiras notas deste artigo recorrendo à memória, uma vez que me encontro em atividade no exterior e, por uma coincidência especial, acabo de presenciar uma cena tão inimaginável quanto memorável.

Como faço há muitos anos, no início de novembro, participei de uma Conferência Internacional realizada na Universidade de Londres, cujo objetivo central é discutir as questões cruciais do nosso tempo.[1]

Durante a referida atividade, soube que o grande cineasta Ken Loach receberia o título de Doutor Honoris Causa, concedido pela Universidade de Bolonha (Itália), em 11 de novembro, e que, por conta da idade de Loach (89 anos), a honraria lhe seria entregue pessoalmente no King’s College, em Londres. Isso me permitiu conhecer essa figura tão especial.

Seria impossível, no espaço deste artigo, tratar de sua monumental produção. Só para efeito de ilustração, recordo de dois de seus filmes que, por seu vigor, oferecem uma fotografia viva da vida cotidiana no trabalho no mundo atual.  

Começo por Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blake, 2016), que se tornou exemplo do drama social gerado pela devastação neoliberal. O filme traz a história trágica de um trabalhador idoso e talvez seja a película mais emblemática do diretor no que tange ao significado profundamente destrutivo do capitalismo contemporâneo para o trabalho e para a subjetividade humana.

Depois de várias décadas dedicadas ao labor, Blake, na hora de cuidar de sua saúde, por conta dos adoecimentos e padecimentos que macularam sua vida no trabalho, vê desvanecer a possibilidade de cuidar de si. Já idoso, o personagem embrenha-se em uma busca inglória por um tratamento. E o horror começa quando se defronta com uma máquina digital programada para dificultar, ao invés de beneficiar, os trabalhadores, particularmente os idosos.

O desfecho da película não poderia ser outro: a tragédia lhe custa a própria vida. Filme britânico, mas profundamente global, nele florescem, junto às tantas mazelas e infortúnios, também as múltiplas formas de solidariedade, presente na luta da amiga-companheira do personagem e de tantos companheiros que se comoveram com sua batalha de desfecho inglório.

Outro estonteante filme de Ken Loach é Você Não Estava Aqui (Sorry We Missed You, 2019), que mergulha profundamente nas tantas mazelas que configuram o trabalho em plataformas, em célere expansão pelo mundo.

Em poucas palavras: o filme trata de uma família em que o marido se tornou um trabalhador uberizado (entregas de e-commerce) e a esposa, trabalhadora também plataformizada, atua no trabalho do care, dos cuidados. Eles têm um filho, jovem estudante, que vai vendo, pouco a pouco, desvanecer o feliz núcleo microcósmico familiar, corroído indelevelmente pelo flagelo das condições do trabalho em plataforma.

Há cenas emblemáticas já nos primeiros minutos do filme, por exemplo, quando o trabalhador ingressa felizardo na plataforma, e, imbuído pelo novo “espírito empreendedor”, decide adquirir um automóvel próprio, financiado, imaginando um futuro próspero em sua nova fase. O resultado é desastroso… Depois, há cena em que o gestor da empresa de e-commerce orienta o novo “empreendedor” (em verdade, um potencial candidato a assalariado ultra-precarizado) a levar consigo uma garrafa pet vazia em seu veículo. Mas por que devo levar uma garrafa vazia?, indaga o trabalhador. O gerente, duro e rústico, diz que ele compreenderia a utilidade em breve.

Não foram necessárias muitas horas para que o trabalhador entendesse que aquela garrafa era vital em seu labor cotidiano. Dado o ritmo extenuante desse tipo de trabalho, sob o comando turbinado dos algoritmos, logo iria aflorar a absoluta urgência: nesta modalidade “moderna” de trabalho, não há nem local e nem tempo para urinar… Assim como não há nem tempo nem espaço para se alimentar, repousar, tomar banho, isto é, aquilo que é basilar para a humanidade, mas de que o trabalhador uberizado é tolhido.

Assim, em pouco tempo, a vida do personagem vai se destruindo e, junto com ele, a sociabilidade familiar. A companheira, trabalhadora dos cuidados, teve que vender o seu automóvel para pagar as dívidas do marido e viu evaporar o transporte que lhe era imprescindível para realizar seus múltiplos atendimentos. E, como se isso não bastasse, nesta modalidade de trabalho completamente desprovida de direitos[2], o filho do casal, ao vivenciar o terrível drama dos pais, acaba por se rebelar e vê soçobrar os laços de solidariedade e de afeto anteriormente existentes entre os membros da família. Dos tantos filmes de Ken Loach, Você Não Estava Aqui é dos um dos mais duros, como se constata em sua cena final, quando afloram o isolamento, o desespero e a desesperança.

De outro lado, solidariedade, vida coletiva, esperança, a luta por um outro mundo, isso é o que não falta na monumental obra fílmica de Loach. Há a ação solidária que transborda, por exemplo, em Pão e Rosa (Bread and Roses, 2000) — em que se retrata uma greve das mulheres trabalhadoras imigrantes contra suas precárias condições de trabalho — e em Terra e Liberdade (Land and Freedom, 1995), sobre a Guerra Civil Espanhola; bem como no documentário The Flickering Flame, de 1996, que estampa a Greve dos Portuários ingleses, derrotados pelo “trabalhista” Tony Blair (que, no Reino Unido, era conhecido na esquerda como Tory Blair), dentre tantos outros filmes que marcam sua obra.[3] 

Ken Loach é, para muitos, em todo o mundo, o maior gênio vivo do drama social contemporâneo.

Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.


[1] Trata-se da 22ª HM Conference (Historical Materialism Conference), realizada na School of Oriental and African Studies (SOAS), que, em 2025, contou com quase 1500 pesquisadores e estudiosos oriundos de todos os quadrantes do mundo. E essa conferência ocorrerá pela primeira vez no Brasil (e na América Latina) em 15,16 e 17 de julho de 2026 na UFRJ – a HM Rio.

[2]  Ver Direitos de Verdade – Essa história também é sobre você, Boitempo, 2025, distribuição gratuita, resultado do Convênio entre o MPT-15 e o Grupo de Pesquisa Mundo do Trabalho e suas Metamorfoses (GPMT-IFCH), em https://direitosdeverdade.com/

[3]  Um estudo qualificado sobre parte da obra de Ken Loach encontra-se em Medina, Cintia, A trágica racionalidade do capital no cinema de Ken Loach, Tese de Doutorado em História Social, USP, 2023.


Foto de capa:

O cineasta Ken Loach ao receber o título de Doutor Honoris Causa, concedido pela Universidade de Bolonha (Itália), no King’s College, em Londres
O cineasta Ken Loach ao receber o título de Doutor Honoris Causa, concedido pela Universidade de Bolonha (Itália), no King’s College, em Londres
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